sábado, 30 de dezembro de 2006

Luís Inocentes

Nasci em Lourenço Marques (Maputo), a 3 de Agosto de 1956 mas só despertei em 1975, o que me levou a muitas peripécias e trouxe problemas acrescidos de amadurecimento.

Fui pai aos 24. Hoje, com cinquenta, lugar comum, tenho a sensação de que foi há dias. E o que se passou desde então!…

Revoltam-me a mentira, a miséria, a injustiça, a prepotência, a má política e as multi-nacionais. Preocupa-me o estado da educação em Portugal.
Gosto de pessoas que não exploram outras pessoas, outros animais, quer selvagens quer amestrados e plantas (que são animais que não saem do sítio).
Gosto de música, cinema, teatro, fotografia, surf, artesanato, bom futebol, da Primavera, Verão, Outono e, menos, do Inverno… é frio! E muitas coisas mais.
Gosto ainda de descobrir novas coisas para fazer.

Sobrevivo, que é como quem diz, ganho o pãozinho para a barriguinha através da jardinagem e sonho ainda poder fazê-lo através do viveirismo de plantas.
Preocupo-me com o presente e o futuro dos que me são queridos e próximos e também com os mais distantes. O mundo está cada vez mais pequeno e por isso é cada vez mais difícil (ainda bem) comer um bife com batatas e ovo a cavalo sem olhar para o lado.

Criam-me ansiedade a violência e o desnorte da vida humana neste maravilhoso planeta que estamos a destruir em ritmo acelerado.
Pensamento (não sei dizer o autor mas para o caso é irrelevante):
«Quando encontramos sem procurar é porque já muito procurámos sem encontrar».
Tenho esperança.

Interioridades














Bonecos


Primeiro boneco. Oferta à minha filha


Exposição em Viana do Alentejo

Artesanato

abat-jour


pormenor

Eu moro aqui


do cimo de uma oliveira à espreita da nossa casa


pai Março e filha Maia


sono almofadado da Riscas

Gado Manhoso - um ponto de vista alentejano


Alentejo interior. Uma pequena vila com 2500 habitantes vive afastada do bulício dos grandes centros. Aqui vive-se com mais lentidão, o tempo rende mais. Mas renderá, para a maioria? Trabalho mal remunerado, adolescentes sem perspectivas risonhas, quem quer e/ou quem pode vai estudar para fora.
Mas a vida continua e é todos os dias e, como em todo o lado, há uns dias melhores que outros.

Há dois largos principais na vila, o primeiro onde se situa o terminal de camionagem, onde se sentam os mais velhos a conversar, fazendo lembrar pardais pousados num fio telefónico, o restaurante Rotunda da D. Luísa e do marido, o Sr. Miguel, pais do Toninho, empreendedor incansável da vila, o lar da 3ª idade e uma fonte pública onde se vem buscar água e onde as mulas, burros e cavalos matam a sede.

No segundo, temos a Biblioteca Municipal, uma farmácia, a Caixa Agrícola e o Café Central, propriedade do mesmo casal há décadas. Do Sr. Feliciano, que lá começou a trabalhar com 14 anos, agora já com 54, e da D. Joaquina, cujo filho único se formou recentemente em bioquímica para orgulho e descanso dos pais.

Episódio curioso passou-se numa consulta ao médico do amigo Feliciano, na qual o doutor, depois de observar as radiografias, o avisou:
- Sr. Feliciano, o senhor tem que deixar de fumar! Tem aqui uma mancha muito feia nos pulmões!
Feliciano olhou para a mulher, que o acompanhava, incrédulo, e retorquiu:
- Ó S’outor, mas eu não fumo! Nunca fumei na minha vida!
- Mas olhe que fuma sim, pode não ser dos seus cigarros, mas o senhor fuma e não é pouco!

Mas o Café Central é o sustento da família… É no Central, com os pulmões manchados pelos cigarros dos clientes, que ironicamente lhe proporcionam o sustento por um lado e lhe tiram anos de vida por outro, que os podemos ver diariamente a trabalhar. Não esquecendo o Sr. Hélio e o Sr. Joaquim, preciosas ajudas.

Junto à escola da vila, o amigo Pinto tem também a sobrevivência assegurada com o seu café.
Aos 11 anos trabalhava como agueiro, orgulhosamente. Carrinhos de mão atestados de bidões grandes cheios com água, que levava encosta acima para os trabalhadores na serra. Nas pedreiras do célebre mármore verde. Uma beleza rara. Profissão de seu pai e sua também, até o corpo já pedir um trabalho mais leve. Mas gostava daquele trabalho, dava-lhe importância, naquela idade, ser ele a dar de beber aos homens mais velhos.
Como era importante ter a roupa suja ao fim de um dia de trabalho, quem não se suja... o miúdo Pinto escondia-se para manchar de terra a sua camisa branca, para não destoar dos demais. Era um deles!

E é por causa dele que este texto existe. Certa noite, fui lá beber um café e dar dois dedos de conversa.
Estava sintonizada a TVI e a sua Quinta das Celebridades. Inevitáveis os comentários.

- Olha-me este, olha-me aquela, olha aqueloutro...
- Que vergonha! Olhem-me só esta miséria, mas isto é alguma coisa, mas que jeito é que isto tem? – comentava.
- Celebridades?... Minha Nossa Senhora, mas célebres em quê? Isto está cada vez pior! Onde isto chegou!

O Alentejano tem sempre uma resposta na ponta da língua, simples, mordaz, original. E assim foi.
Depois do chorrilho de impropérios que ambos despejámos a respeito deste recentíssimo dejecto televisivo, o amigo Pinto baixa a cabeça por instantes, como quem tenta concluir uma ideia, e, erguendo a cabeça:
- Ó senhor, aquilo que ali está... É tudo gado manhoso.

Não diria melhor. Gado Manhoso.


antes da poda


cortes da poda ao rubro

A Árvore




No alto da colina, de braços abertos ao céu acima, saboreia languidamente um fantástico pôr-do-sol, de cores cremosas aqui, brilhantes mais além, um jogo de sombreados lindíssimos, um bando de patos em formação - clássico - um espectáculo!...

É seu hábito diário, desde que tem memória, assistir ao nascer do dia e ao mergulhar do Sol daquele preciso local.

Quer seja porque a sua idade lho dispensa, ou porque mais não pretende do que ficar ali a sentir a brisa aquecida pelo Sol, ou o vento frio nos meses de Inverno, ela não sente necessidade de conhecer outras paragens.

Adora a terra onde vive, delicia-se com as águas da chuva que recebe no corpo e sente na alma.

Ninguém sabe ao certo se conhece outros lugares, se tem algum segredo bem guardado, se na calada da noite se esgueira para visitar um amante secreto, um parente ou amigo, ninguém sabe ao certo...

Transmite na sua serenidade uma imensa sabedoria, uma comunhão profunda com a Natureza que a envolve, sente-se que a vida lhe basta, que não precisa nem de vestidos caros, nem de casas sumptuosas, nem jóias. Ela é uma jóia.

Amiga dos animais que protege sempre que a água jorra do céu cinzento e ameaçador, ou quando o Sol abrasador queima a terra abaixo ou quando o ar, acometido por súbita ou anunciada loucura, varre tudo à sua frente com uma força que, por vezes, parece ilimitada.

Enraízada incondicionalmente na terra, bebe o alimento diluído na água que as suas raízes alcançam, ri para o fogo mal ele espreita esticando os braços na sua direcção, trocando com o ar aquilo de que ambos precisam.
E mais não quer, do que voltar a ver o Sol nascer.

Esta é a árvore.


31 de Janeiro, raro Alentejo


mais de perto

Fruta



Fruta.
Este tema... ai este tema... fruta!
Fruta.
Sei que há muitas pegas... fruta, fruta, pronto!
Há a fruta da muita fruta!!!

Há Nesperinhas, Limõezinhos, Laranjinhas, Perinhas, Papaias e nos casos mais dramáticos, vulgares em terras de bush, as Abóboras.
Isto do lado feminino porque do lado masculino temos os Pêssegos, os Pêros e os Pães que é a fruta do padeiro.
Ah... e na área das cabeças há as de Abóbora, Melancia e Melão, todas com muita água. Se os Alhos forem aceites como fruta, teremos as dos chochos.

No entanto sinto-me mais atraído pelas frutas, frutas.
Isto quer dizer que sempre gostei muito de fruta.
Banana esmagada com sumo de Laranja....hum... é o máximo! Sempre gostei. Os Morangos, se bons, são uma delícia! Naturais ou com açúcar, com ou sem chantilly... muitos! Para batido ou gelado também são dos meus preferidos. Na minha tenra idade houve uma excepção, agora já ultrapassada, no meu gosto generalizado por frutas. A Manga. Talvez o sabor fosse invulgar e algo adstringente, pastoso. Mas, hoje, já incorporei este sabor nos sabores agradáveis. Mas tem que estar bem madura!
A Papaia descobri-a em Tete, Moçambique, de manhã ao pequeno almoço, partida ao meio, como se faz à Meloa, limpa das inúmeras sementes pretas sobre o alaranjado profundo da polpa, com açúcar e sumo de limão... um regalo! Gostava imenso do processo de limpá-la das sementes molhadas e escorregadias.

Afinal tive também um caso bicudo com outra fruta, a Pera Abacate, não foi só com a Manga. Este problema com a Pera Abacate terminou com a descoberta do açúcar, do limão e da canela. Esmagada. Outra fruta que gosto de comer esmagada, como para os bebés, com açúcar e canela é o Queijo Fresco.

Abacaxi e Ananás... espectáculo! Mas não abusar por causa do ácido nos cantos da boca. Se não forem ácidos... à farta!
Redondinha, sumarenta, generosa, cor de laranja... a Laranja!
Recomendada para prevenir espirros e constipações por causa da sua vitamina C. Gosto dela aos gomos, às rodelas e, outro espectáculo da fruta deste Planeta!, em sumo logo de manhãzinha, em jejum... Descarga certa e espaço livre para um belo pequeno almoço. Uma excelente entrée de qualquer dia do ano.

Conheci no quintal da nossa casa na Rodésia uma Goiabeira que me deu centenas de Peras Goiabas, a maioria comidas em cima dela, nas incontáveis trepadelas por ela acima. Um sabor e textura muito particulares. E a Amoreira, mais abaixo do outro lado da rampa da entrada? Ricas Amoras! Vermelho tinto na boca, nos calções e na camisa... era mato, digo, Amora! Tudo para lavar. E as nódoas... ai, as nódoas!

Alaranjada, do tamanho de uma uva matulona, a nossa conhecida e querida Nêspera. Tirada a pele, dois ou três caroços, leiam-se sementes, que germinam com muita facilidade, e o resto é tudo polpa!
Uma árvore generosa, a Nespereira, e resistente uma vez implantada.
As Uvas... estão aprovadas. Brancas, pretas, de qualquer cor, desde que boas. Peras, Maçãs e Pêssegos sempre estiveram na mesma classe de gostos. Qualquer deles em qualquer altura desde que saborosos e sumarentos. Hoje já se apanha muita farinha e desgosto com estes três.
Fruto divinal, que descobri já tarde ou numa fase adiantada da minha vida, se preferirem, sofisticado, de textura alucinante, gosto sensual e muito característico, ou se ama ou se detesta... o Dióspiro!

Nunca pensei no limão enquanto fruto embora conheça quem os coma à dentada, qual laranja. Não me choca mas não pratico. Já que estamos de novo pela vitamina C, lembro-me do Kiwi, muito rico na dita e com sabor exótico, agradável. Quente não, nem muito frio. Fresquinho e maduro q.b. cai muito bem. É bom mas não deliro.

Fruta de eleição?... Várias.
Banana, Morango e Dióspiro com a frequência da sequência apresentada.
Poderia ter ido pelos Morangos com "Strawberry Fields Forever" ou pela Tangerina, prima pequena da Laranja, atrás de "Tangerine Dreams" ou com o Melão, não, com o Melão, não! Mas não fui, vim por aqui.

Uma Viagem pela fruta da minha Vida. Obrigado por terem viajado comigo.

Perguntaram ao Dalai Lama o que mais o surpreendia na Humanidade...



«Os próprios homens... porque perdem a saúde para juntar dinheiro,
depois perdem dinheiro para recuperar a saúde.
Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente de tal forma
que, acabam por não viver bem nem um nem o outro.
E vivem como se nunca fossem morrer... acabando por morrer como se
nunca tivessem vivido».


Excepto os desgraçados, que são muitos, que nem para comer têm, digo eu,
e cujo presente se mistura triste e inexoravelmente com o futuro morrendo
simplemente a tentar sobreviver. O Dalai Lama deveria estar a referir-se
à Humanidade "civilizada" do planeta na qual, felizmente, o pão tem estado garantido.




Luís Inocentes